terça-feira, 25 de agosto de 2009

Nesse estranho mundo cão (sete vidas)

Foi motoqueiro quem tirou
minha primeira vida
A segunda, perdi de velho
Na terceira: suicida
A quarta: envenenamento
(lembrar me dói cabeça e barriga)
Uma garota levou a quinta
(ataca a mãe pra ver se quica)
Por fim um anjo me levou na cesta
(Portas do céu: quanta gentileza!)

Só me resta uma vida
mas por você eu morreria
Faça gato e sapato dessa ninharia

Por um banho de língua
entro até na carrocinha
Eu encaro vira-latas por você, gatinha

Nesse estranho mundo cão
quem tem menos mais arrisca
Tivesse uma ao invés de seis
sairia desse cisca-cisca?

Rato no prato
Ração no pote
Quentes abraços
Sete filhotes
Supermercado
em lixos nobres
E ainda grátis
nesse pacote
as garras desse
gato da sorte

Só me resta uma vida
mas por você eu morreria
Eu luto, eu pego, eu mato
ratazana e companhia

Por mais uma lambida
vendo até a alma minha
Reencarno e te entrego as outras sete, gatinha.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Metalinguagem


Escrevo, a lápis, cavalo: ca-va-lo.
Apago a palavra, poupando-lhe a sílaba primeira.

A essa, adiciono três: pa-ce-te.

Aos que, porventura lerem,
esse meu papiro (o qual pregarei
na porta de alguma igreja) imaginarão
um capacete e um confuso -
a outra palavra do cartaz.

Mas não trata-se de um trivial capacete:
um terço dele veio a cavalo;
e esse, valendo-se de análogo processo,
tem sua parte de canalha: ca-na-lha.

As beatas, o jornaleiro, ou o padre, ou
um indigente a coçar o carvão do bigode
com o frio esmeralda do topo da garrafa,
deveriam pensar, ao encararem meu manifesto
em algo como (ou no que quiserem):

Um capacete que relincha e dá coices no próprio dono;
um capacete cuja viseira são enormes dentes,
e neles há adesivos de baixo calão;
um capacete que defeca a granel, causando acidentes
em autódromos, avenidas e estacionamentos;
um capacete com ferraduras da sorte a um preço exorbitante.

Talvez eu esteja confuso;
mas não da confusão que o leitor deduz:
de outra,
a qual nascera
da palavra "contemplação".


Paralelo universo


O universo para lê-lo
universo paralelo
para lê-lo una o verso ao léu
paralelo universo

Una o verso para lê-lo ao léu
universo paralelo

O universo paralelo
universo para lê-lo
paralelo una o verso ao léu
para lê-lo universo

Una o verso para lê-lo ao léu
universo paralelo

Ao léu o sal, o céu, o siu
do psiu ...
ao léu o sol e o sul
de todo azul... ditando azul...
de todo blue: todos os blues

o que nem tudo que é ouro reluz
o que nem mudo ou em coro traduz

Ao léu o hall, o hell, o riu
do tardio...
o roll do roquenroll
e o ru

di-men-tar

e as estréias que não pude estar
e as estrelas que não pude star

e o beijo que eu nunca kiss
e o beijo que eunuco quis.

Poesia de cabeceira

Poema para meu 43º aniversário - Charles Bukowski

terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
ou vinho ―

apenas uma luz elétrica
e uma barriga estática,
grisalho,
e feliz de ainda
ocupar esse espaço.

... de manhã cedo
eles já estão nas ruas
fazendo dinheiro:
juízes, carpinteiros,
médicos, encanadores,
jornaleiros, policiais,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...

e você se vira
para o lado esquerdo
para apanhar o sol
nas costas
e longe dos seus olhos.

Tradução de Lauro Marques.

Veja esse som

Tom Zé - O amor é um rock



"O amor é um Rock, a personalidade dele é um pagode"

Um vaga lume da minha janela


O inseto mortal afronta o infinito das trevas.
Se, de piscar em piscar, David concorda com elas;
não o faz por medo, angústia ou persuasão:
é solidária a Golias - a ínfima luz deste efêmero grão.

O Éden e o Orvalho


Filha bastarda do ménage à trois
(a saber: álcool - carência - DJ),
nascera, nesta boate,
a intimidade entre estranhos:
Narciso a esperar, da manhã,
o orvalho
aonde mergulhará a imagem
de sucesso do seu fracasso.

Carrega em seu DNA
primeiros últimos beijos
(essa navalha que estraçalha românticos
ao desprender camaleônicos sutiãs);
eternos amigos de poucas horas que
nem se lembrarão o quão
geniais e medíocres estão
logo o Éden se transforme
no ganha pão das faxineiras; e
como não,
algo de Carpe Diem: a última: dança,
beijo, molestação autorizada, aperto de mãos,
manifestação de simpatia ao próximo,
porre, abraço, copulação,
vontade de explodir em luz e som :
algo que nossas avós fariam igual,
desprovidas de saias tão longas -
velhas costuras de naftalina
da onipresente coersão social.

Bebemos uma nova alma
sonhando hipnotizar
aquele que nos hipnotiza
com seu aparato anti lual, minha ninfeta -
por nossos Buarques Mutantes,
nossos Riders on the storm e nossa
mulher de Los Angeles
no último volume
a estilhaçar as vidraças
de todo e qualquer ouvido.

E, engraçado, seres tão sincera,
em seu hálito de menta e cabelo maçã,
em seus olhos pré crepúsculo sem chuva,
com alguém tão
novo quanto desengonçado,
um ser de quem pouco sabe do que jamais importará,
mas, as mesmas vertigens
sempre sentira e sentirá:
desde o dia em que nascera
até o outro que nascerá.


Poesia também é letra

Sem saia, sem cera , censura - Tom Zé


É a rima, a rima ditada por lei, por decreto
É a múmia que mama no feto
É a luz que se filtra nas grutas
O insosso temperando as frutas

O medo, o medo tem que censurar para criar
A parceria da pedra com a vidraça
Do elefante com a graça, com a taça
A parceria da bala de canhão, canhão, canhão
Com a bolinha de sabão.

A censura, ela gosta da arte
Mas é a Medusa retocando a musa
A censura, ela ama a arte
Mas é como a fera penteando a bela
A censura, ela morre de amor pela arte
Mas é a enxada
Acarinhando a fada
A censura, ela adora a fragrância da arte
Mas é o machado
Entre as flores do prado

Tercerizando sensibilidades - Poeasiamiga

Tchello d'Barros - Poesia Visial