quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Metalinguagem


Escrevo, a lápis, cavalo: ca-va-lo.
Apago a palavra, poupando-lhe a sílaba primeira.

A essa, adiciono três: pa-ce-te.

Aos que, porventura lerem,
esse meu papiro (o qual pregarei
na porta de alguma igreja) imaginarão
um capacete e um confuso -
a outra palavra do cartaz.

Mas não trata-se de um trivial capacete:
um terço dele veio a cavalo;
e esse, valendo-se de análogo processo,
tem sua parte de canalha: ca-na-lha.

As beatas, o jornaleiro, ou o padre, ou
um indigente a coçar o carvão do bigode
com o frio esmeralda do topo da garrafa,
deveriam pensar, ao encararem meu manifesto
em algo como (ou no que quiserem):

Um capacete que relincha e dá coices no próprio dono;
um capacete cuja viseira são enormes dentes,
e neles há adesivos de baixo calão;
um capacete que defeca a granel, causando acidentes
em autódromos, avenidas e estacionamentos;
um capacete com ferraduras da sorte a um preço exorbitante.

Talvez eu esteja confuso;
mas não da confusão que o leitor deduz:
de outra,
a qual nascera
da palavra "contemplação".


Um comentário:

Eliana Mora (El) disse...

Gosto da tua poesia.
Um estilo [para mim] cada vez mais 'non-sense', mas com o senso que te é bem peculiar.

Super tua. Ninguém 'tasca', Renato.

beijo,
El