sexta-feira, 9 de julho de 2010
Menos de argamassa que maestros
segunda-feira, 5 de abril de 2010
A Batalha das Aranhas Azuis
pelas costas do inimigo
fez-se o ventre do qual
nasceram
milhares de estátuas
cada uma com o mesmo
par de olhos tristes que - ao
contrário de minha
boca - fecharei um dia.
Em todo onze de novembro
livres da inanimação graças
ao milagre anual
tais esculturas, em gangue, promovem
arruaças pelos
quatro cantos do mundo celebrando
o que a história não oficial
batizou
"A Batalha das Aranhas Azuis " -
Apedrejam vidraças universitárias
ao sul da Califórnia.
Na neve de Moscou, guerreiam, infantilmente.
As Tupiniquins disfarçadas
de escritores consagrados cometem
pequenos furtos
na lentidão dos semáforos.
Aos pés da Torre Eiffel (bem como
no ponto mais alto da Cordilheira
dos Andes) bebem
vinho comem
carneiro fumam
ópio tocam
flauta recitam
meus poemas e agradecem a Deus
pelo feriado não oficial.
Ao final do espetáculo voltam
cambaleando a seus postos e
misturadas às estátuas oficiais retomam
a certeza de que
quase nunca serão
notadas talvez
por um cachorro mijão
ou
sabe-se lá por
um universitário
extremamente
atento.
Carta de Rimbaud a Paul Demeny
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Sobreviverei
Assassinos lacrimejaram em um berçário.
Cercado por familiares que
em gestos pré-infantilizados
tentavam comunicação
não com o predador a se arquitetar
mas com a formalidade ou
o amor ao próximo Rita Baiana:
sem frescura, atietado de tão nobre
descalço se preciso:
amor que nunca cora –
o único deveras.
Na cena mais bela
que a natureza pode proporcionar-nos
amamentaram-se.
Não consta que assassinos não se alimentam -
assim como padeiros, poetas e prostitutas que
com assassinos lacrimejaram em um berçário
ao lado de futuros pecuaristas e jogadores de futebol –
ainda que algum desses não tivera tempo
de driblar a pré-mortalidade ou tristeza que a valha
para errar dois escanteios.
Não consta que atletas nascem barbados.
Nestes pensamento apego-me
ante a ferida dos golpes
para não julgar mal um bebê:
uma rosada bochecha lançada à escuridão
sem nenhum destino traçado
exceto o de ser refém do meio.
Ele: a faca.
Eu: a concentração e o “ter com quem nos mata lealdade”.
Assoprarei sua barriga.
Com um sopro canivete
transbordarei sua boca em sorrisos –
são esses os glóbulos dele.
Nestes pensamentos apego-me.
Sobreviverei.
Protesto
algumas letras "Os" deste texto estão de ponta cabeça.
Outras, cães, inimigas de si
ou ao menos do rabo, giram, incessantemente
como se a inércia expelisse ruídos capazes de
a musa da inspiração, destroná-la
do alvo algodão de sua nuvem,
convertendo-a a terrestres estratagemas.
As experientes, sabedoras que este protesto é,
a moda de certos répteis,
o veneno que cura, mantém-se de pé:
imponentemente rechonchudas.
Menos a última
que não entende destas coisas paradoxais.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Tercerizando sensibilidades - Poeasiamiga
Antônio Adriano de Medeiros
Além de excepcional sonetista, este poeta escreve, com propriedade e proficiência, cordéis - também outros tipos de textos.
É um dos poetas que mais admiro, neste e em todos os tempos - pelo que escreve, óbviamente, mas também por ser um grande incentivador de minhas escritas,desde que o conheci em um grupo de poesia virtual, creio que há uns 10 anos atrás.
Possui um blog aonde encontrar-se-á diversas poesias deste psiquiatra, cujo primeiro choro ecoou-se na Paraíba, em Santa Luzia.
http://antonioadrianomedeiros.blogspot.com/
DO BREVE ENCONTRO DE LAMPIÃO COM JESUS
Só eu conheço os segredos
que a Poesia me deu.
Só eu conheço os mistérios
que o velho Tempo escondeu:
o futuro e o passado,
o nascido e o finado
no presente que sou eu.
Quando Lampião morreu
pôs fim a um desatino
– Pois ninguém pode ser justo
sendo um tenaz assassino:
Satanás foi pro portão
com seu tridente na mão
esperar por Virgulino.
Todavia, quis Destino
a coisa mais complicada,
porque o Rei do Cangaço
teve a cabeça arrancada
e, assim sendo, fez jus
ao Decreto de Jesus
da Alma Martirizada.
Aquela que foi queimada;
o que foi cortado ao meio;
a beleza ultrajada
sem os olhos, sem um seio
– Mesmo que vá pro Inferno
passa no Jardim Eterno
pra se reparar o feio.
E assim ao Céu veio
após morrer Lampião
para ser avaliado
pelo São Sebastião.
O santo olhou o Processo
e disse assim: – “Sem sucesso.
Pode descer para o Cão!”
Mas o ex-Rei do Sertão
foi um homem devotado
ao Santo Padim Ciço
e Jesus Crucificado.
Abecou Sebastião,
botou o santo no chão
e gritou: – “Ô seu viado,
Eu não respeito soldado
nem de Jesus, nem do Cão!
Um macaco me degola,
outro dá condenação?
Daqui não me vou embora!
Vão chamar Nossa Senhora,
Jesus, ou mesmo o Chefão!”
– Leitora, leitor irmão:
o cangaço invade o Céu!
Eram onze os degolados
com Bonita, a mais fiel!
Pulam sobre Bastião,
querem arrombar um portão...
Sai correndo Gabriel.
Logo o Arcanjo Miguel
chega à toda disparada:
– “Selvagens! Bestas humanas!
Não conhecem a minha espada?
Virgulino, não esqueça:
se arranco a sua cabeça,
vai ficar sempre arrancada!”
Bonita fica assustada
e Miguel entra sem dó:
– “Eu já enfrentei a Besta,
mas a mulher é pior:
Quanto mais meto a espada
mais se diverte a danada
querendo mais e maior!”
– “Macaco Arcanjo, é melhor
você me tratar direito
porque se Seu Chefe sabe
que me tratou de tal jeito,
você tá frito, meu nêgo,
pois vai perder seu emprego
e de todos o respeito!”
A Virgem pulou do leito
porque Francisco a chamou
e foi, bela e radiante,
pr’onde a briga começou:
– “Peço a todos paciência!
Somos contra a violência...
Bom Jesus nos ensinou!”
Lampião se ajoelhou
ao ver Virgem Maria
e a briga terminou
às sete e trinta do dia.
Maria se retirou
e Gabriel entregou
uma carta que trazia.
– “Da Mais Alta Hierarquia
das Hostes Celestiais
trago um Comunicado
aos que a manhã nos traz;
os tais onze degolados
e que foram condenados
às profundas infernais.
O Nosso Reino é de Paz,
Fraternidade e Perdão.
Por isso que Bom Jesus
– O Mais Puro Coração –
após pesar com prudência,
pra evitar violência
vai receber Lampião.
Os demais, em procissão,
queiram aguardar lá fora
pois nossa Repartição
necessita, sem demora,
atender os mutilados
que vêm de todos os lados
para a sua ùltima hora.
Senhor Virgulino agora
aja com educação.
O Nosso Reino é de Paz,
não comporta confusão.
Se um revolucionário
tenta ser incendiário
Jesus lhe dá confissão.”
Em seguida Lampião
foi para outro aposento,
levado pelo Arcanjo
e seguido por São Bento.
Bom Jesus a esperar,
ele pôde descansar
em confortável assento.
Enfim chegou o momento,
brilhou uma forte Luz
– Sinal de que vinha Alguém
cuja Presença reluz! –
Lampião, que era caolho,
ganhou até mais um olho
para contemplar Jesus.
– “Ó Mestre que bem conduz
o rebanho à Salvação!
Sou ovelha desgarrada
que seguiu a Lobo Cão.
Mas foi pra fazer justiça
que deixei muita carniça
sobre a terra do sertão!”
– ”Agiste por emoção,
meu filho, não por amor.
Pois responde, Lampião,
a quem chamas de Senhor:
Pode-se fazer justiça
multiplicando a carniça
na estrada do rancor?”
– “Eu fui grande pecador,
mas toda noite rezava.
Se passava numa igreja
boa oferenda dava.
Fazia o Sinal da Cruz
e pensava em ti, Jesus,
toda vez que a um matava.”
– “Se de mim tu te lembravas
quando matavas alguém,
ou me tomavas por cúmplice
– Coisa que não me convém –
ou quem sabe te lembravas
que quando a um outro matavas
tu me matavas também.”
– “Ave Maria e Amem!
Tenho cara de romano?
Por acaso sou Pilatos,
o governador tirano?
Ou serei o Caifás
que juntou-se a Satanás
quando urdiu astuto plano?”
– “Quais eles tu és humano,
Virgulino Lampião.
Mas tu foste educado
decerto como cristão:
quando a outro maltratavas
era a mim que tu matavas
dentro de teu coração!”
– “Eu me chamo Lampião
pois minha arma reluz
como fogo quando aceso
ou como um facho de luz.
Fui pobre e fui perseguido;
fui herói e fui bandido:
fui igual a Ti, Jesus!”
– “Todos têm a sua cruz ,
mas não te faças de tonto
te dizendo igual a mim...
Acreditas nesse conto:
Tu fizeste o que eu fiz?
O teu próprio nome diz:
és Virgulino, eu sou Ponto.”
– “Eu também fiz contraponto
para a lei do carcará.
Fui cordeiro perseguido
]por gato maracajá.
Briguei com onça pintada
em minha terra explorada,
e sendo um simples preá.”
– “A serpente o bode dá
por confiar na peçonha.
Se você se diz pequeno
na verdade me embronha:
logo caia carapuça
e se mostra a sua fuça,
orgulhoso sem-vergonha...”
– “Bom Jesus tenho vergonha
de O ter deixado irritado...
Rezei tanto pro Senhor,
fui um cristão devotado...
Confiei no teu perdão,
mas vejo que foi em vão:
vivi a vida enganado...”
– “O meu perdão está dado,
mas meu juízo é reto.
Admitir-te no Céu
jamais seria correto.
Justiça com as próprias mãos
e matando a teus irmãos...
O Inferno é o teu teto!”
Jesus saiu tão discreto
que Lampião nem notou:
quando tentou responder
não mais a Ele encontrou.
Outra porta se abriu
e o cangaceiro ouviu:
– “O teu mestre já chegou!”
E no recinto adentrou
um sujeito muito pabo.
Lampião lhe perguntou:
– “É o senhor o Diabo?”
– “Sou teu irmão Satanás!”
Lampião olhou pra trás
e viu que ganhara um rabo.
– “Lampião, não fique brabo,
nem de vergonha vermelho.
Agora não podes ver,
que aqui não tenho espelho.
Bonita foi infiel:
nem bem saía do Céu
já te fez do boi parelho...”
Lampião em destrambelho
mãos na cabeça botou
e um belo par de chifres
ele ali o encontrou.
Mas se vendo endiabrado
em vez de ficar zangado
o danado gargalhou.
Antônio Adriano de Medeiros
sábado, 12 de dezembro de 2009
O outro lado
O outro lado. Nem anjos, nem demônios: a autópsia deles.
Nem gnomos, nem dragões: a autópsia deles.
O que imagino de lá, extingue-se - como pensar em diversas formas de morte para que nenhuma aconteça ou eu morra mago, um nobre vidente.
O outro lado.
Como parar a moeda em pé? Permita-me Einstein. Grite-me Papa. Acalme-me Buda. Sussurre-me Alá. Sem truques, como pará-la?
Eu escuto o lado B dos discos para esconder o lado A.
O outro lado.
É o orgasmo, querida, o que mais aproxima-nos dele - pois não conhecemos o amor.
Que nós, apaixonados pela falta de amor próprio, elejamos chave, o orgasmo - que dissolver-se-á antes, sempre antes, de chegarmos ao portal.
O qual imagino todo mar cristalizado em única, imensa, bela e tenebrosa onda (só para que não seja) - como pensar em diversas formas de morte para que nenhuma aconteça ou eu morra mago, um nobre vidente.
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O Palhaço
Poesia de Cabeceira
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Se o dia insone fosse
Elefante
que o elefante perdera
quando o circo, a visitar-nos a cidade, apareceu,
é elefante ainda.
O animal a seguir sem parte da cauda
também o é -
e não são dois.
Assim como qualquer partícula
de sua desgastada pata
que ficara e ficará no caminho.
Um elefante é uno.
Fios de cabelos, de meus amigos, que não estimam-no,
também são amigos, e talvez amassem-no,
pudessem, um parecer, emitir.
O que delimita um elefante, membros do júri?
Fale de Cabra, se pastor és;
de Vaca, se vaqueiro:
Cabras e Vacas enquadram-se na tese.
O que as delimita?
A face, a maior concentração de massa, o coração?
Não, não creio.
Chamo-o "Massinha Cinzenta".
Não lhe dou de comer
porque ele é elefante,
mas eu não sou burro.
Burros, e toda e qualquer espécie, e mamoeiros,
enquadram-se na tese.
O que delimita um elefante, membros do júri?
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Não crê no homem, mas acredita na humanidade
Competem dois ventos.
De uma sacola plástica, vale-se o primeiro;
de uma página de jornal, o segundo.
Encarnado em uma tampa Coca-Cola,
figura transversal aos que pelejam,
um terceiro, linha de chegada, aguarda epilético.
Esgotado o embate,
organizar-se-á o segundo,
cuja arbitragem ficará a cargo do vento derrotado;
cabendo
ao vencedor
duelar com o que os bandeirava,
em rua subseqüente e na carne de outra coisa -
a nota C do exame, o fio da barba algodão,
o grão de areia, a bituca lançada pela mulher,
o endereço do melhor dentista de São Paulo,
a rabiola viúva, a embalagem vazia, etc.,
a mosca quase
morta.
E assim, asfalto pós asfalto, até que,
em forma una e indivisa,
os ventos acordem com o ideal de,
por outras bandas,
as árvores destruí-las e,
suas sementes,
espalhá-las,
assinando ventania, tão
somente, ventania.